Eletronicoblog entrevista Cory Doctorow - Parte 2

publicado: sexta 13 março 2009 por Ale em: Internet Entrevistas

Continuamos com a nossa entrevista a Cory Doctorow, o famoso jornalista, blogger e autor de ficção científica do momento. Após nos mostrar algumas visões interessantíssimas sobre o começo da Internet, ele continua falando sobre os social networks e sobre o futuro dos blogs. (Se você perdeu a primeira parte da entrevista, ela está disponível nesse artigo).

Você acha que a enorme quantidade de pessoas presente nas social networks mudará os atuais modelos mentais e sociais?

Bom, eu acho que existe um certo aspecto patológico da “social media”, ao qual agente deveria reagir de algum modo. O açúcar branco não é o mesmo açúcar da fruta, assim como um social network não representa a mesma sociedade do mundo real. No dia-a-dia não tempos relações quantificadas e articuladas, mas sim contingentes e qualitativas: amigos, quase amigos, gente que não amamos mas que temos que fingir de amar, são tantas pequenas diferenças que uma social network não pode entender e não sabe administrar. Ela acaba por ser uma imagem da realidade social re-proposta e medida em database, muito distorcida. Por isso, com o tempo, a Social Network perde valor: depois de ter convidado 20 pessoas e estar feliz com a sua rede de amigos, você acaba ampliando-a até o ponto de ter uma comunidade muito grande, que não te satisfaz mais.

Não existe uma política pública de educação para as social networks. O que você pensa disso? Atualmente ensina-se às crianças como proteger-se dos maníacos sexuais, mas não a prestar atenção à própria dieta midiática, a constuir uma Network pessoal útil e não bulímica..

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Sinceramente eu não acho que haja necessidade de uma política de educação pública, é uma coisa que já acontece de maneira natural. A história da “social media” é que todos optam por um serviço e depois de algum tempo a participação vira tóxica, e o serviço é abandonado. As pessoas começam a mudar de serviço para recomeçar com um pequeno núcleo de verdadeiros amigos, em uma dimensão aceitável. Mas mesmo entre esses 20 amigos de confiança, quase sempre existe alguém que não é muito sociável, uma pessoa com a qual na vida real os encontros são muito cordiais mas muito limitados, e que no mundo digital acaba por se aproximar muito, porque não há instrumentos para expressar uma relação mais complexa e detalhada, há só o status de “amigo”.

Se alguém pensar em uma política de educação útil, seria interessante ensinar às pessoas o que acontece quando as suas informações pessoais são acessadas, mostrar que isso é um processo irreversível. E a melhor maneira para ensinar o valor das próprias informações pessoais não é condenar as social networks, mas sim reformar o Governo de maneira que recolha informações pessoais somente quando necessário, para depois tratá-las com o devido cuidado. Se o Governo recolhe todas as informações de todo mundo, acaba-se por difundir a mensagem que aquelas informações não têm valor: depois, não podemos reclamar do fato que as pessoas deixam que essas informações sejam recolhidas mesmo em empresas comerciais, que não são instituições sujeitas a determinadas regras no interesse público do cidadão.

Como você vê o futuro dos blogs e dos vídeo-blogs? É uma coisa interessante porque o vídeo poderia inclusive permitir interações mais naturais nas social networks, por exemplo com vídeo-comentários. O que você pensa disso?

Não tenho uma opinião muito forte sobre vídeo-blogging, mas foi importante por ter mostrado a existência de novos gêneros de conteúdo, novos espaços em relação à economia tradicional da indústria. Existiam historicamente 3 ou 4 formatos para vídeo: 22 0u 48 minutos para a televisão, de 90 a 120 minutos para o cinema, e ponto. Nunca havia-se cogitado produções de menor duração. Mas atualmente existem muitas histórias que não se encaixam nesses formatos, seja porque são mais compridas ou mais curtas, seja porque são diferentes em algum aspecto.

Não é estranho que os canais de notícias tenham esattamente 24 horas de notícias? É um acaso absolutamente extraordinário que o a cada dia aconteçam coisas que caibam em um tempo de exatamente 24 horas?! A coisa fantástica da web como sistema de arquivamento é que não tem uma dimensão fixa. Se um dia são publicados 20 posts e no dia seguinte são publicados 3, não há um jornal 100% cheio de notícias a cada dia: é uma situação muito mais natural e adaptada à informação.

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